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Brasília. Oásis de brilho parco. Las Vegas brasileira.
Bancas de jornais ardiam às três da tarde. O sol evaporava violentamente o espelho d’água. Faxinavam um corredor de Nova Versalhes. Carros jorravam CO2 no deserto. Um fardado de terno olhava a cidade pela persiana da janela ministerial. O celular tocou. O fardado tirou-o do bolso, abriu, deixou que a sombra cobrisse seus olhos, e atendeu. Alô?
‘‘Ah, consegui te ligar. Estou indo praí, e o sinal estava péssimo. Deixe-me explicar o que está acontecendo, posso?’’
‘‘Vá em frente.’’
‘‘Ótimo. São muitas coisas. Vou mencionar algumas: o IBOPE da Record. Você sabe, eles nos ultrapassaram. Isso não parecia ser um grande sinal, na realidade… E algumas pessoas daqui me disseram que talvez fosse melhor se manter na retaguarda e não correr riscos ainda. Mas quem manda pensa diferente. Além disso, há algum projeto de lei aí. Noticiaram isso hoje no jornal, eu digo, mas ninguém sabe muito bem o que pode virar. É algo sobre mais poderes religiosos, não sei bem. É um dos motivos pelo qual estou indo aí. Por outro lado, tem esse acordo com o Vaticano…’’
‘‘Vocês não estão indo longe demais?’’
‘‘Não, quero dizer, o Vaticano não vai nos comprar. Não estou sugerindo nada sobre o Vaticano. Mas o número de crentes está enorme, você sabe. Esse Edir Macedo tem todos esses rolos que estamos soltando, mas isso precisa de uma ajuda de vocês também. Nós estamos tentando libertar a população do feitiço… Olhe, há quem se vicie em pagar o dízimo. Então viciam no canal da igreja. Estou indo direto demais ao ponto?’’
‘‘Estou acostumado.’’
‘‘Ah sim. Bom, eu nunca fiz isso, mas me pediram pra ser sincero. Ou inventar alguma sinceridade que pareça ser de utilidade pública. Bom, vocês são a utilidade pública, e nós temos o poder pra divulgar… Ainda. Quero deixar claro: não é algum tipo de lobby. Mas isso simplesmente não pode chegar a um nível que vire uma jihad — e você sabe que há quem goste da jihad aqui.’’
O fardado suspirou. ‘‘Eu sei.’’
‘‘Perfeito. Há uma janta marcada. Estou te convidando. Você pode ir?’’
‘‘…não sei. Podemos conversar quando você chegar?’’
‘‘Sim, claro, mas pense que essa janta pode ser útil pra vocês e para nós, e podemos torná-la boa para você e para mim.’’
O fardado parou pra pensar. O cara que liga é meio novo. Mas ele vem com instruções do que falar, e isso não é pouco. Disseram para esperar pela ligação, e quem disse não é gente de se ignorar. Tencionar um pouco pro lado do garoto não fará mal.
‘‘Vamos deixar meio certo isso. Preciso verificar agenda e essas coisas. Falamos quando chegar.’’
‘‘Me disseram que vão me largar na frente do museu, na Praça dos Três Poderes. Dê uma passada ali, eu te ligo quando estiver lá. Tente não trazer mais gente, não estou acostumado com isso.’’
‘‘Perfeito. Bom resto de viagem. Até mais, abraços.’’
O cara que ligou se despediu.
Aquilo era sério.
Hoje eu vi um pedaço duma entrevista na TV Senado enquanto almoçava. Dois jornalistas conversavam com o entrevistador (outro jornalista, é claro) sobre temas religiosos na mídia. Mais especificamente, sobre a imposição ameaçadora que a Record começou a despontar. Os dois estavam de acordo com a posição que o Estado deve ter. Conceder o canal, mas cobrar aquilo que um canal deve ter, isto é, conteúdo artístico, cultural, informativo etc. Não mexer com conteúdo: isso é censura. Censura é um assunto delicado. Censura pega mal.
Não: não censura. Mas não deixar que a coisa perca o sentido: o canal deve prestar serviços à comunidade, e não à contas bancárias.
Eu nunca tinha visto uma discussão tão morna e tão… Interessante.
A Globo já influenciou o movimento estudantil. O que ela conseguiria fazer contra o fanatismo religioso? (É esse o nome popular que se dá para o fenômeno que evolve a venda de bens pessoais para ajudar a sua instituição religosa. O nome científico da patologia me escapa agora.)
Meu palpite é: muita coisa. Até mesmo uma aliança com a Igreja Católica? Muito improvável. Parece que há um acordo Vaticano-Estados Unidos relacionado à não intervenção católica perante o avanço do protestantismo no Brasil, por causa de um empréstimo que o Banco do Vaticano fez. Mas, e se acontecesse? Seria uma guerra santa na TV? Pastores contra todos, padres contra todos… Não muito diferente do que acontece hoje, mas com um broadcasting de dar medo.
Em teoria, as duas maiores redes de TV brasileiras (para meu conhecimento esparço sobre o assunto), Globo e SBT, nunca se envolveram com a religião. Mas dá pra afirmar seguramente que nunca se envolveram abertamente como faz a Record — e faz por ser propriedade do Edir, é claro. SBT e Globo têm uma convivência relativamente pacífica: cada uma no seu quadrado, como diria o poeta. O terceiro elemento se coloca no meio, usando-se de seu poderio de ácido-derretedor-de-mentes. São os bárbaros derrubando Roma. (Engraçado que o protestantismo é forte no norte da Europa, de um modo geral, e fraco no sul, principalmente na Itália. E onde era Roma mesmo? Claro, não estamos na Europa, mas…)
Então temos este quadro: Record se tornando a primeira, Globo a segunda, e SBT a terceira. As duas últimas não vão gostar nada disso… A primeira quebra santos, a segunda denuncia, e a terceira vai depender do Sílvio Robô Santos & algum tipo de promoção ‘‘mate um evangélico e ganhe cinquenta reais’’. Isso pode parecer besteira, mas pense sobre a maçaroca de coisas que escrevi aqui, e você verá que não é.

gostei da promoção: mate um evangélico e ganhe cinquenta reais,hehehe
podia ter até uma promoção, mate dois no mesmo dia e ganhe cento e cinquenta… heheh
ah,e tem que provar o assassinato mandando documentos e partes do corpo do(s) evangelico(s) assassinado(s) para o sbt e pra globo!
Não aguento esse papo de religiões.
Desde os áureos tempos que a igreja católica era o “máximo”, dava as ordens aos governantes e a peãozada.
A Globo era uma “m” mas nos últimos 10 anos qualificou-se bastante. Claro, de olho numa programação nível Globo Internacional.
A Record me arranca os pentelhos mas não falo. Digo, não vejo.
Conclusão, religião – cada um tem a sua. Televisão – faça sua programação, pipoqueie atrás daquilo que lhe convém. Se nada agradar, vá pro Youtube, leia um livro, fale com seus amigos, vizinhos, família…. só não vá a Igreja dar seu…. piiiiiiiiiii