Quem me conhece sabe qu’eu gosto de Linux. Quem me conhece também sabe que eu sou um tanto metódico quanto a algumas questões pequenas que eu considero importantes. Algumas coisas me irritam profundamente. Outras me irritam superficialmente. Hoje vamos falar de uma que fica bem no meio do meu degradê de irritabilidade: facilidade versus dificuldade.
Para isso, vou me usar do último texto que li sobre o Linux: Teste mostra que novo Ubuntu está simples para a maioria dos usuários.
Quero chamar atenção a um trecho que parece inofensivo, e que é reproduzido de novo e de novo em todo texto sobre distribuições populares de Linux. Vejam, com atenção especial à parte que destaquei:
Não posso, ainda, comparar a facilidade do Windows com a do Linux, mas o Ubuntu ganha em desempenho e segurança pois é um sistema estável e com pouca incidência de pragas virtuais que tanto assustam e atormentam os usuários do Windows.
Facilidade. Esse é um termo quase canônico para se discutir software livre. Mas vejam vocês — e isso infelizmente não se aplica apenas aos sistema operacionais — o conjunto binário ‘‘fácil’’ e ‘‘difícil’’ é completamente distorcido pelos escritores, e seu sentido já se perdeu completamente na poeira que subiu com tanto discussão sobre o sistema do pinguim.
Definindo
Num texto que escrevo sobre processadores e texto e normas ABNT (que você pode baixar aqui), eu defino meu conceito de facilidade e dificuldade.
- Fácil é algo que não exige muito (conhecimento, trabalho);
- Difícil é aquilo que exige;
- Simples é tudo aquilo que é claramente lógico, inteligente, organizado;
- Complexo é aquilo que, por outro lado, é bagunçado, desorganizado, ilógico.
De lambuja defini o que é simples e complexo, criando uma dupla de sistemas binários que têm sentidos nebulosos. De posse dessas informações, podemos começar a discutir.
Intuitividade?
Fernando Panissi disse que o Windows é incomparavelmente mais fácil que Linux. Esse é um dado completamente empírico. Se a facilidade do Windows vem de sua aclamada ‘‘intuitividade’’, então começamos a ter outro problema. A intuitividade desse sistema operacional reside no fato de que é, inegavelmente, o sistema mais usado por pessoas que não estudam computadores, por aquelas que compram o computador como uma máquina (assim como se compravam máquinas de escrever antigamente). Sendo o sistema mais usado, você provavelmente vai ter contato primeiro com ele. Assim, vai aprender a mexer primeiro nele, e qualquer coisa diferente parecerá ‘‘contra-intuitiva e difícil’’.
Como forma de quebrar o mito da intuitividade, deixo vocês com um vídeo que prova muito mais do que eu poderia falar.
Ah, mas ainda acho o Windows mais fácil
Mesmo assim, podemos dizer que o Windows é fácil apesar de toda a intuitividade adquirida? Eu prefiro não fazer isso sem antes dar alguns exemplos. No Linux você possui um controle muito maior sobre o computador. Muita gente alega não entender Linux e, portanto, esse controle é inútil para elas; mas isso acontece justamente porque o Windows fecha a possibilidade de controle, de modo que o usuário médio nem conhece a possibilidade.
Facilidade me parece ser medida em quantidade de botões. Quanto mais botões espalhados, mais fácil. Isso não exige muito conhecimento para ser operado. Porém, deixa o sistema complexo: quando você tenta fazer coisas mais avançadas, a facilidade que o sistema impõe não te permite ir além da linha do possível.
Por exemplo: digamos que eu tenha 500 fotos na minha câmera digital. Elas foram tiradas em alta resolução. Eu separei 50 do churras do domingo para mandar por email, mas são muito grandes para enviar. Como resolvo no jeito fácil?
O Caminho do Windows
Você instalou o Windows normalmente. Você precisa achar um programa para redimensionar as fotos. Sai procurando na internet e, eventualmente, topa com algum programa de edição de imagem no Baixaki. Digamos que seja o GIMP. Você baixa, instala, abre o GIMP, e como é um usuário que gosta de fuçar, em pouco tempo entendeu como ele funciona e conseguiu converter uma foto. Agora você tem outras 49. Trabalhão, não?
O Caminho do Ubuntu
Vou descrever como você faria no Ubuntu, que é a distribuição mais famosa desses tempos. Numa instalação normal, você tem o GIMP. Quem te mostrou o Ubuntu disse que é um programa de edição de imagens igual o Photoshop. Você abre, abre sua foto, diminui ela, salva. Agora você tem outras… 49 fotos para redimensionar.
O Caminho do Terminal
Você é um usuário que gosta de fuçar de verdade, e descobriu o terminal no Linux. Intrigado com todo o trabalho manual de converter as 49 imagens restantes, você fuça na internet para saber se não há nada mais inteligente e acaba caindo num site. Esse site te diz que o comando
te dá uma imagem nova com metade do tamanho da antiga. Como você conhece um pouco de terminal, intui que o comando
irá converter todas elas automaticamente. Para mim, isso é intuitivo e simples. E não gastou mais de três minutos de pesquisa. Em três minutos, se você for realmente rápido, teria convertido umas… três imagens. Além do mais, você nunca mais terá que sofrer e pensar como será chato o trabalho de converter: o computador faz por você.
Para não me estender…
Vou acabando por aqui. Quero deixar o jogo em aberto, agora que defini muito bem o que é fácil, difícil, simples e complexo, e te deixar pensando na pergunta: quanto mais ícones, mais o sistema é complexo por baixo. Qual a dificuldade em aprender algo novo, mais poderoso, e que, apesar de ser difícil por exigir um tiquinho de pesquisa e boa vontade, é muito mais simples, no final das contas?

Ótimo texto, parabéns. Eu costumo usar o terminal pra redefinir as tags de músicas e converter flac/m4a pra mp3.
O Gimp possui “batch conversion” (via script de terceiros), porém concordo que via terminal é (bem) mais rápido.
http://members.ozemail.com.au/~hodsond/dbp.html
@Bremm não conhecia! O GIMP é uma ferramenta muito poderosa, e eu não quero diminuí-la de forma alguma. Foi apenas ilustrativo.