Tenho aqui do lado uma série de livros. Um deles é o livro vermelho da tipografia — Elementos do estilo tipográfico, de Robert Bringhurst. É, sem dúvidas, uma das melhores obras que já li. Se eu te disser que o que eu faço da vida não tem absolutamente nada a ver com a tipografia, você poderia me perguntar por que eu li esse livro, ou mesmo por que me interesso pelo assunto.
Para responder isso, eu poderia dizer que eu vejo uma conexão entre o que faço e a tipografia; ou poderia, ainda, argumentar que me interesso por diversas áreas aparentemente divergentes. Mas vou responder de uma maneira diferente.
Exatamente na primeira subseção da primeira seção do primeiro capítulo desse livro Bringhurst escreveu: “a tipografia existe para honrar seu conteúdo”. Esta é a primeira de suas considerações para o leitor. Ora, isso é muito curioso: a tipografia é uma arte de suporte, dependente do conteúdo, ao mesmo tempo que o eleva.
Bringhurst também diz que a tipografia pode ser sincera, ou então acrescentar valor àquilo que não possui. Penso numa propaganda da segunda guerra, talvez um velho cartaz nazista, rasgado nas pontas, convocando a população a se unir ao partido.
Quando escrevemos um texto, principalmente um texto no qual trabalhamos duro, gostamos de vê-lo impresso, as letras concretizadas no papel. Mas cada uma dessas letras digitais que usamos carrega um peso histórico, que remonta dos antigos papiros — que, diz o autor, já possuíam visíveis noções de tipografia que continuamos a usar até hoje — passa pelas inscrições romanas em pedra — da onde vêm nossos tipos romanos —, depois pelos escribas, a prensa móvel chinesa e de Gutemberg, até as fundições digitais, nossas contemporâneas.
Porque a tipografia tem uma tradição é motivo para que seja respeitada; porque tem um objetivo sincero, acredito que deva. Seu objetivo é honrar os mais altos pensamentos humanos que, muito embora postos em perspectiva não sejam nada em relação ao Universo, são aquilo que temos de melhor.
Na tipografia, tudo tem história, relação matemática, harmonia ou desarmonia, dependendo do objetivo.
Acontece que a máquina de escrever e depois os populares softwares de processamento de texto possibilitaram a virtualmente qualquer pessoa que edite seus próprios textos. Nenhuma noção de tipografia foi dada; esse não é o interesse, pois o interesse é vender.
As consequências são um desrespeito em duas vias: um que atinge a tipografia, outro que atinge nossos textos e até mesmo, pasmem, livros publicados fisicamente. Valorizo aquilo que produzo, e por isso valorizo a boa tipografia, dentro dos meus limites de amador. Se você sente que aquilo que escreve merece respeito, minha dica é que comece a respeitá-lo.

