Solucionando São Paulo e Mais

Venho aqui expor meu ideal de cidade. Ele necessita de um mundo disposto, sem o conceito de dinheiro e menos pessoas, mas, caso você encontre isso e o planeta Terra esteja nessa situação… Este é o seu guia.

Existia, ou talvez hoje existam ruínas, uma cidade muito grande no Brasil. Em verdade, era a maior da América do Sul. Chamava-se São Paulo. No dia em que escrevo isso, São Paulo passou por cento e setenta quilômetros de congestionamento — que é uma gigante fila composta de carros, que são as verdadeiras espécies dominantes. Isso aconteceu porque, além da cidade ter crescido demais e o número de carros ser enorme, por esses dias a cidade passava por uma crise de enchentes.

Walking on Waters
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Então resolvi escrever algo que eu não gostaria de escrever: utopias. Esta é minha cidade utópica.

A humanidade já não depende mais de margens de rios para viver. Há muitos milênios desenvolvemos os primeiros canais, mas temos hoje bombas de água. Durante quatro séculos e meio São Paulo usufruiu, poluiu e, por fim, canalizou o rio Tietê. A necessidade de viver às suas margens tornou-se a impossibilidade de mudar a situação. Canalizar um rio é um erro; é um erro tão absurdo imaginar que há algum bem em concretar o solo, transformar o curso do rio numa reta ideal — com essa precisão milimétrica da engenharia.

Assim começaria a construção de qualquer cidade se me fosse dado o encargo: deixe o rio na dele. Abriríamos trilhas na mata pra quem quisesse pescar; teríamos um sistema de pequenos canais e bombas para desviar e bombear água do rio, em pequena quantidade.

Reconheço a necessidade de limpar o terreno, ou seja, derrubar árvores; não acho que isso seja ruim, se feito com moderação e bom senso. Pelo menos um quilômetro de mata ciliar contornando o rio seria o ideal. Esse mato teria um diâmetro, e os prédios iriam se configurar em círculo em volta dele. Em vários pontos o rio seria cruzado por pontes, portanto, que serviriam de comunicação entre os vários círculos da cidade, que são todos intercalados por mata.

Embora tenha reconhecido que desmatamento não é completamente ruim se feito do jeito certo, acho inaceitável que os círculos de concreto não tenham árvores. Mais que isso: não deveria, de maneira alguma, haver estradas ou ruas asfaltadas. Em lugar disso, trilhos de trem, que garantem a permeabilidade do solo. Carros seriam banidos, mas vias para ônibus circulares de maneira mais dinâmica, ao lado dos trilhos, são úteis. Ainda assim, trens são melhores.

Por quê? Porque hoje os humanos são subjugados pelos carros. Eles são rápidos e pesados, podem te atropelar ou te matar de câncer por causa dos gases que emitem. As cidades são feitas para eles, mas deveriam ser feitas pra nós.

Enquanto escrevo, muitos dos carros que passam por São Paulo desejam chegar ao litoral do Brasil. Esta é uma rota muito usada, e uma obra para desviar esse fluxo de carros é ansiosamente esperada: chama-se Rodoanel. Eu não acredito que isso vá funcionar, porque existe uma lei simples que rege as cidade. Ela funciona assim: construa uma rua ao lado da cidade, e ela crescerá para este lado.

É de conhecimento público que o sistema de governo por leis — permitam-me dizer, o governo em si — não funciona. Por este mesmo motivo, não existe no plano piloto de São Paulo, que é a lei que diz como deve crescer e se configurar a cidade, nenhuma lei proibindo o crescimento da cidade para este lado. Isto é, até onde sei. Para não deixar nenhuma dica aos meus contemporâneos, deveria existir uma lei com este teor: nenhuma construção deve ser feita na área entre a cidade e o Rodoanel; qualquer trecho que não seja metropolitano nesta área deveria constituir uma nova área de preservação ambiental.

Amigos, meus descendentes do futuro: se a humanidade passar por qualquer evento catastrófico, apocalíptico, peço que procurem conhecer tudo o que seus antepassados produziram em ciência, tecnologia, filosofia etc. Não permitam que a população cresça em níveis desnecessários; não permitam que nenhum tipo de economia insustentável surja, muito menos se ela for baseada no lucro — palavra cuja raiz história é a palavra lucru, latim para “logro”. Montem uma rede mundial de computadores e transmitam todo o conhecimento que puderem, de maneira gratuita e descentralizada. Não permitam que um governo se forme. Governos são instituições parasitárias que, sob o signo de conciliadores e reguladores, são na verdade legitimadores de condutas empresariais e, para tanto, chupam o dinheiro da população em geral.

Eu insisto que, se as cidades não mais existirem, voltem a existir. Em toda a história da humanidade, foi na cidade que surgiram diversos pensamentos novos. Naturalmente que uma grande quantidade destes pensamentos são terríveis, mas tenho fé de que terão a capacidade de distinção. A vida nômade é a mais natural para os humanos, então não deixem que as cidades vos tornem sedentários. Mesmo assim, volto a insistir, construam uma civilização com arquitetura harmoniosa ao mesmo tem que distinta visualmente da natureza… Conversem respeitosamente com a natureza… Mas voltem ao objetivo pelo qual, secreta e silenciosamente, trabalham meus contemporâneos sem saber: navegar novamente, navegar o espaço, lançar âncoras em novos mundos, sem jamais interferir no curso de qualquer espécie que por ventura viva lá, mesmo que seja tão simples quanto o mais insignificante de nossos vírus ou micróbios.

Este será provavelmente nosso último nomadismo, a não ser que aprendamos a viajar para outros universos.