Pensamentos Aleatórios sobre a Língua Humana

Introdução

Nas aulas que o professor Paul Bloom ministrou em Yale sobre language — que podemos traduzir por linguagem ou língua, já que nosso idioma faz essa distinção que o inglês não faz (a forma utilizada ao longo do texto será “língua”) — ficamos sabendo que a língua é constituída de três partes.

Language has structures going from the bottom to the top. All languages–All human languages have phonology, which is the system of sounds or signs; morphology, which is the system of words or morphemes, basic units of meaning; and syntax, which refer to rules and principles that put together words and phrases into meaningful utterances.

Ou seja, a língua humana possui:

  • Fonologia;
  • Morfologia e
  • Sintaxe

Já o linguista Archibald A. Hill, em sua Introduction to Linguistic Structures, define cinco características da língua humana (fiz um pequeno resumo das características; se você desejar se aprofundar, leia o primeiro capítulo da obra, intitulado “What is language?”):

  1. Language [...] is a set of sounds;
  2. The connection between the sounds, or sequences of sounds, and objects of the outside world is arbitrary and unpredictable;
  3. Language is systematic [os elementos da língua seguem determinado sistema];
  4. [Language] is a set of symbols;
  5. [Language] is complete [se você é falande de uma língua X, pode se expressar com total desenvoltura, dizer absolutamente tudo o que quiser];

O que leva A.A. Hill à bela conclusão:

We can now attempt a definition of language, though the definition will be cumbersome. Language is the primary and most highly elaborated form of human symbolic activity. Its symbols are made up of sounds produced by the vocal apparatus, and they are arranged in classes and patterns which make up a complex and symmetrical structure. The entities of language are symbols, that is, they have meaning, but the connection of language are simultaneously substitute stimuli and substitute responses independent of an immediate physical stimulus. The entities and structure of language are always so elaborated as to give the speaker the possibility of making a linguistic response to any experience. Most of the above can be paraphrased by saying that every language is a model of a culture and its adjustment to the world.

Algumas considerações

Existem mais algumas coisas que quero chamar a atenção. A primeira delas e mais óbvia, é de que, em nenhum momento, a língua humana foi definida em termos de escrita pelos acadêmicos acima. Essa é uma visão muito importante. É da crença geral de que a boa língua é a escrita e consagrada, mas isso não é verdade. Posso dizer dois motivos: primeiro que não existe tal coisa de “boa língua” — não teremos espaço para juízos de valor aqui. O segundo motivo é que a língua falada precede a língua escrita sendo, portanto, mais fundamental. Línguas completas sobrevivem até hoje em civilizações ágrafas, como os índios brasileiros.

Toda língua em uso sofrerá modificações. Na nossa sociedade é comum ouvir a reclamação de que as novas gerações estão deturpando a língua, mas o leitor deve estar precavido de que esse é o tipo de pensamento idiota e que acompanhará a humanidade para sempre: reclamações sobre a língua dos jovens estão registradas em textos egípcios!

Existem considerações do substrato psicológico que, dada minha ignorância no assunto, posso apenas especular esperando estar no caminho certo. Notei que há um elemento amarrador entre língua e matemática: a lógica. O fato de que o ser humano regular possui determinada lógica é o que permite a comunicação. Vou além: essa lógica inerente ao nosso modo de pensar é exatamente o que rege nossa língua e nossa matemática.

A matemática possui diversos paralelos com a linguagem. Assim como os conceitos de substantivo e verbo é natural, os conceitos de operação (como soma, multiplicação) e número também são. Assim como temos uma gramática universal — verificada em todas as línguas do mundo — a matemática também tem suas regras universais. Em língua temos convenções (“gato” se refere ao animal por uma questão aleatória e arbitrária, assim como os números são representados de forma arbitrária, mas isso vai além, pois conceitos abstratos, como reta, também são apenas convenções: axiomas necessários para a matemática).

Essa lógica inata também rege linguagens (e não só línguas) como desenhos técnicos, placas de trânsito etc.

Matemática e língua e linguagem devem, pois amarrados pela lógica, estar relacionados a nível cerebral — mas, novamente, isso é apenas especulação.

Linguagens — ou seriam línguas? — de programação

É mais ou menos do conhecimento geral que o computador trabalha na base binária. Isso significa que tudo o que existe virtualmente no computador é, em estado puro, representado e armazenado usando apenas dois dígitos: zero e um.

Mas isso significa que é impossível para um humano programar o computador, não? Afinal, a linguagem de máquina é hermética, para começar, por seu tamanho estrondoso. É como reescrever um livro inteiro com apenas dois caracteres, mantendo todo o conteúdo.

Essa é a função das linguagens de programação: línguas artificiais com gramática e léxico próprios que permitem ao ser humano criar um programa. O código é passado, então, por um compilador, que interpreta a linguagem de programação e cria um arquivo binário — em linguagem de máquina.

Se extrapolarmos a definição de Paul Bloom, descobrimos que a língua tem, na realidade, três elementos:

  1. Um suporte onde é representado, seja este escrito, falado etc.;
  2. Léxico, ou seja, palavras que possuem significado;
  3. Gramática, ou seja, a lógica de como o léxico se comporta numa unidade de sentido coesa.

E então descobrimos que as linguagens de programação também têm estes três elementos. As diferenças são claras: ao invés do suporte da língua ser falado, é escrito; ao invés de um léxico gigante, reduzido; ao invés de uma gramática mais sutil, uma gramática mais bruta, no sentido de permitir frases menos sofisticadas.

Na definição de Archibald A. Hill, porém, existe o elemento da completude: linguagens de programação não nos permitem falar sobre paixão, o sentimento das tardes, a luminosidade do luscofusco, ou experiências táteis.

Existem também elementos e classes que são praticamente idênticos aos da língua natural humana. Por exemplo, o léxico das linguagens de programação é majoritária, se não completamente, composto de verbos — ações. Os substantivos são criados pelo programador usando as variáveis: você dá um nome e atribui um valor, ou espera que alguém atribua um valor a ela. As variáveis, e também substantivos constantes, são trabalhados e utilizados pelos verbos, que são organizados numa determinada lógica gramatical inteligível.

Finalmente, existe uma régua cujo início está na linguagem de máquina (binária) e cujo fim está na língua humana. Linguagens de programação mais elementares, próximas da de máquina, são classificadas como de baixo nível: têm pouco léxico e gramática espartana, o que resulta em códigos maiores porém menos complexos.

Uma língua de alto nível possui um léxico maior e portanto o código será mais enxuto e complexo.

Nenhuma linguagem de computador, porém, sequer se aproxima de nossa língua. Quando você deseja que alguém feche a janela, você simplesmente pede (ou ordena): feche a janela. Quem ouviu a requisição e conhece a gramática da língua, o significado de “feche” e “janela” etc. Poderá ou não fazer o que você pediu.

Já um programa, digamos, para um robô fechar a janela seria muito mais complexo. Você deveria dizer: vá para determinada posição x e y no plano do chão; posicione-se de maneira que seus braços e sua cabeça estejam exatamente na frente da janela (que está em tal posição); erga seus braços até encontrar um apoio; agarre o apoio e puxe a janela para baixo tantos centímetros; solte o apoio; volte para sua posição inicial.

E, é claro, o programa seria ainda mais extenso, já que estaria escrito numa linguagem de muito mais baixo nível do que o pequeno programa que fizemos em português acima. A complexidade seria tão baixa, porém, que qualquer leitor poderia rapidamente entender e reproduzir os passos — mesmo um computador, que é um dos seres mais burros da face da Terra.

Contato — conversando com alienígenas

Esse pensamento aleatório se desenvolveu, possivelmente, depois de eu ter assistido a Cosmos, do Carl Sagan. Em determinado episódio, Sagan propõe que a linguagem de contato entre humanos e alienígenas seja a ciência. Mas até que ponto podemos ter esperança de conseguir compreender e sermos compreendidos?

Por falta de informações, teremos de presumir toda uma série de dados baseado em, apenas, especulação. Não sabemos nada sobre como a vida se dá em outros planetas, se os mecanismos são os mesmos etc. Mas, seja qual for a natureza da vida extraterrestre, ainda assim as ideias que exploraremos são válidas.

Em primeiro lugar, temos de pensar num assunto que eu não conheço literatura precedente — discussões anteriores — e que, ao mesmo tempo que parece plausível, é completamente inimaginável e parece bastante improvável: seria a nossa lógica a única possível?

Sabemos que algumas pessoas que nasceram ou sofreram danos cerebrais não são mais capazes de compreender o que, para alguém sem danos, é lógico. Podemos imaginar que alguns danos ou má formações cerebrais, porém, façam com que a pessoa crie outras relações lógicas em sua cabeça, que para nós pareceriam nonsense. Se isso pode acontecer entre indivíduos de mesma espécie, porque não acreditar que poderia acontecer entre nós e indivíduos com história evolutiva completamente diferente da nossa?

Considerando o que dissemos acima, sobre a natureza matemática e lógica da linguagem, tira-se que a língua humana é intimamente ligada à lógica humana. Podemos expressar lógica (e nonsense) a partir da linguagem, mas todas as relações internas de todas as línguas do mundo são fenômenos que podem ser expressos em termos da lógica. Existem livros discutindo isso então no pior dos casos não estamos pensando besteira sozinhos.

Levando os argumentos apresentados ao extremo, temos que é possível, então, uma matemática, ciência, teorias e língua não só completamente diferente daquilo que nós conhecemos — mas, também, ininteligível.

Essa é uma condição claramente triste e desesperançosa. Espero que seja apenas uma possibilidade maluca.