Pensamentos Aleatórios sobre a Língua Humana

Introdução

Nas aulas que o professor Paul Bloom ministrou em Yale sobre language — que podemos traduzir por linguagem ou língua, já que nosso idioma faz essa distinção que o inglês não faz (a forma utilizada ao longo do texto será “língua”) — ficamos sabendo que a língua é constituída de três partes.

Language has structures going from the bottom to the top. All languages–All human languages have phonology, which is the system of sounds or signs; morphology, which is the system of words or morphemes, basic units of meaning; and syntax, which refer to rules and principles that put together words and phrases into meaningful utterances.

Ou seja, a língua humana possui:

  • Fonologia;
  • Morfologia e
  • Sintaxe

Já o linguista Archibald A. Hill, em sua Introduction to Linguistic Structures, define cinco características da língua humana (fiz um pequeno resumo das características; se você desejar se aprofundar, leia o primeiro capítulo da obra, intitulado “What is language?”):

  1. Language [...] is a set of sounds;
  2. The connection between the sounds, or sequences of sounds, and objects of the outside world is arbitrary and unpredictable;
  3. Language is systematic [os elementos da língua seguem determinado sistema];
  4. [Language] is a set of symbols;
  5. [Language] is complete [se você é falande de uma língua X, pode se expressar com total desenvoltura, dizer absolutamente tudo o que quiser];

O que leva A.A. Hill à bela conclusão:

We can now attempt a definition of language, though the definition will be cumbersome. Language is the primary and most highly elaborated form of human symbolic activity. Its symbols are made up of sounds produced by the vocal apparatus, and they are arranged in classes and patterns which make up a complex and symmetrical structure. The entities of language are symbols, that is, they have meaning, but the connection of language are simultaneously substitute stimuli and substitute responses independent of an immediate physical stimulus. The entities and structure of language are always so elaborated as to give the speaker the possibility of making a linguistic response to any experience. Most of the above can be paraphrased by saying that every language is a model of a culture and its adjustment to the world.

Algumas considerações

Existem mais algumas coisas que quero chamar a atenção. A primeira delas e mais óbvia, é de que, em nenhum momento, a língua humana foi definida em termos de escrita pelos acadêmicos acima. Essa é uma visão muito importante. É da crença geral de que a boa língua é a escrita e consagrada, mas isso não é verdade. Posso dizer dois motivos: primeiro que não existe tal coisa de “boa língua” — não teremos espaço para juízos de valor aqui. O segundo motivo é que a língua falada precede a língua escrita sendo, portanto, mais fundamental. Línguas completas sobrevivem até hoje em civilizações ágrafas, como os índios brasileiros.

Toda língua em uso sofrerá modificações. Na nossa sociedade é comum ouvir a reclamação de que as novas gerações estão deturpando a língua, mas o leitor deve estar precavido de que esse é o tipo de pensamento idiota e que acompanhará a humanidade para sempre: reclamações sobre a língua dos jovens estão registradas em textos egípcios!

Existem considerações do substrato psicológico que, dada minha ignorância no assunto, posso apenas especular esperando estar no caminho certo. Notei que há um elemento amarrador entre língua e matemática: a lógica. O fato de que o ser humano regular possui determinada lógica é o que permite a comunicação. Vou além: essa lógica inerente ao nosso modo de pensar é exatamente o que rege nossa língua e nossa matemática.

A matemática possui diversos paralelos com a linguagem. Assim como os conceitos de substantivo e verbo é natural, os conceitos de operação (como soma, multiplicação) e número também são. Assim como temos uma gramática universal — verificada em todas as línguas do mundo — a matemática também tem suas regras universais. Em língua temos convenções (“gato” se refere ao animal por uma questão aleatória e arbitrária, assim como os números são representados de forma arbitrária, mas isso vai além, pois conceitos abstratos, como reta, também são apenas convenções: axiomas necessários para a matemática).

Essa lógica inata também rege linguagens (e não só línguas) como desenhos técnicos, placas de trânsito etc.

Matemática e língua e linguagem devem, pois amarrados pela lógica, estar relacionados a nível cerebral — mas, novamente, isso é apenas especulação.

Linguagens — ou seriam línguas? — de programação

É mais ou menos do conhecimento geral que o computador trabalha na base binária. Isso significa que tudo o que existe virtualmente no computador é, em estado puro, representado e armazenado usando apenas dois dígitos: zero e um.

Mas isso significa que é impossível para um humano programar o computador, não? Afinal, a linguagem de máquina é hermética, para começar, por seu tamanho estrondoso. É como reescrever um livro inteiro com apenas dois caracteres, mantendo todo o conteúdo.

Essa é a função das linguagens de programação: línguas artificiais com gramática e léxico próprios que permitem ao ser humano criar um programa. O código é passado, então, por um compilador, que interpreta a linguagem de programação e cria um arquivo binário — em linguagem de máquina.

Se extrapolarmos a definição de Paul Bloom, descobrimos que a língua tem, na realidade, três elementos:

  1. Um suporte onde é representado, seja este escrito, falado etc.;
  2. Léxico, ou seja, palavras que possuem significado;
  3. Gramática, ou seja, a lógica de como o léxico se comporta numa unidade de sentido coesa.

E então descobrimos que as linguagens de programação também têm estes três elementos. As diferenças são claras: ao invés do suporte da língua ser falado, é escrito; ao invés de um léxico gigante, reduzido; ao invés de uma gramática mais sutil, uma gramática mais bruta, no sentido de permitir frases menos sofisticadas.

Na definição de Archibald A. Hill, porém, existe o elemento da completude: linguagens de programação não nos permitem falar sobre paixão, o sentimento das tardes, a luminosidade do luscofusco, ou experiências táteis.

Existem também elementos e classes que são praticamente idênticos aos da língua natural humana. Por exemplo, o léxico das linguagens de programação é majoritária, se não completamente, composto de verbos — ações. Os substantivos são criados pelo programador usando as variáveis: você dá um nome e atribui um valor, ou espera que alguém atribua um valor a ela. As variáveis, e também substantivos constantes, são trabalhados e utilizados pelos verbos, que são organizados numa determinada lógica gramatical inteligível.

Finalmente, existe uma régua cujo início está na linguagem de máquina (binária) e cujo fim está na língua humana. Linguagens de programação mais elementares, próximas da de máquina, são classificadas como de baixo nível: têm pouco léxico e gramática espartana, o que resulta em códigos maiores porém menos complexos.

Uma língua de alto nível possui um léxico maior e portanto o código será mais enxuto e complexo.

Nenhuma linguagem de computador, porém, sequer se aproxima de nossa língua. Quando você deseja que alguém feche a janela, você simplesmente pede (ou ordena): feche a janela. Quem ouviu a requisição e conhece a gramática da língua, o significado de “feche” e “janela” etc. Poderá ou não fazer o que você pediu.

Já um programa, digamos, para um robô fechar a janela seria muito mais complexo. Você deveria dizer: vá para determinada posição x e y no plano do chão; posicione-se de maneira que seus braços e sua cabeça estejam exatamente na frente da janela (que está em tal posição); erga seus braços até encontrar um apoio; agarre o apoio e puxe a janela para baixo tantos centímetros; solte o apoio; volte para sua posição inicial.

E, é claro, o programa seria ainda mais extenso, já que estaria escrito numa linguagem de muito mais baixo nível do que o pequeno programa que fizemos em português acima. A complexidade seria tão baixa, porém, que qualquer leitor poderia rapidamente entender e reproduzir os passos — mesmo um computador, que é um dos seres mais burros da face da Terra.

Contato — conversando com alienígenas

Esse pensamento aleatório se desenvolveu, possivelmente, depois de eu ter assistido a Cosmos, do Carl Sagan. Em determinado episódio, Sagan propõe que a linguagem de contato entre humanos e alienígenas seja a ciência. Mas até que ponto podemos ter esperança de conseguir compreender e sermos compreendidos?

Por falta de informações, teremos de presumir toda uma série de dados baseado em, apenas, especulação. Não sabemos nada sobre como a vida se dá em outros planetas, se os mecanismos são os mesmos etc. Mas, seja qual for a natureza da vida extraterrestre, ainda assim as ideias que exploraremos são válidas.

Em primeiro lugar, temos de pensar num assunto que eu não conheço literatura precedente — discussões anteriores — e que, ao mesmo tempo que parece plausível, é completamente inimaginável e parece bastante improvável: seria a nossa lógica a única possível?

Sabemos que algumas pessoas que nasceram ou sofreram danos cerebrais não são mais capazes de compreender o que, para alguém sem danos, é lógico. Podemos imaginar que alguns danos ou má formações cerebrais, porém, façam com que a pessoa crie outras relações lógicas em sua cabeça, que para nós pareceriam nonsense. Se isso pode acontecer entre indivíduos de mesma espécie, porque não acreditar que poderia acontecer entre nós e indivíduos com história evolutiva completamente diferente da nossa?

Considerando o que dissemos acima, sobre a natureza matemática e lógica da linguagem, tira-se que a língua humana é intimamente ligada à lógica humana. Podemos expressar lógica (e nonsense) a partir da linguagem, mas todas as relações internas de todas as línguas do mundo são fenômenos que podem ser expressos em termos da lógica. Existem livros discutindo isso então no pior dos casos não estamos pensando besteira sozinhos.

Levando os argumentos apresentados ao extremo, temos que é possível, então, uma matemática, ciência, teorias e língua não só completamente diferente daquilo que nós conhecemos — mas, também, ininteligível.

Essa é uma condição claramente triste e desesperançosa. Espero que seja apenas uma possibilidade maluca.

Apresentando o Blog de Uma Nação

Há um ano o movimento separatista de Avignon se concretizou, dando origem a um novo país — na verdade, uma micronação. O meu país. Muitos aqui devem conhecer Avignon, formalmente República Livre Eristocrática Monarquista Absolutista Anarquista d’Avignon.

Depois de um ano de independência, Avignon mudou seu domínio virtual: o novo endereço é avignon.cabaladada.org

Mas as novidades são muitas. Para começar, a aplicação de cidadania é, agora, pedida via formulário. Visite esta página para pedir sua cidadania.

Mais novidades estão por vir, entre elas (finalmente) a Bandeira Nacional, que está nos estágios finais de desenho, e o Hino Nacional.

Bad Mickey Mouse, Ugly Mickey Mouse

Em 1998 um ato conhecido como the Mickey Mouse Protection Act foi assinado nos Estados Unidos. Em poucas palavras, ele estendia o tempo de vida do copyright de uma obra em vinte anos. Isso significa: os desenhos do Mickey (pelo menos os mais antigos) deveriam ser de domínio público hoje em dia. Claro que o nome do ato está relacionado a uma pressão da Disney.

Leio neste artigo, de julho de 2008, que a União Européia ia estender o tempo de seu copyright em 45 anos. As músicas dos Beatles deveriam estar caindo em domínio público no ano de 2012. Em 2006 o Macworld anunciou numa notícia que isso não iria acontecer, e que estavam envolvidos em lobby artistas como Jethro Tull.

E essas extensões são recorrentes e sempre acontecem. Por quê?

meeky mouse
Creative Commons License photo credit: The Nothing Corporation

O motivo é claro para todo mundo: ninguém quer perder seus centavos. Naturalmente que os artistas têm um motivo mais claro para isso do que as gravadoras — o trabalho foi todo deles —, mas são tão censuráveis quanto elas.

Daqui pouco menos de 45 anos, quando os desenhos do Mickey estiverem para cair no domínio público — bem como as músicas dos Beatles — não parece óbvio que começarão a se movimentar novamente para assegurar mais tempo?

Isso é bastante ridículo. Num outro momento li que o Paul McCartney e o Ringo Starr acham que 99 cents por suas músicas é muito pouco, por isso elas não vão para a iTunes Store. Em outro, que Bonno Vox acha que a internet deveria ser mais controlada. Ed O’Brien, guitarrista do Radiohead, diz que a pirataria não está matando a música. Descubro que os artistas estão ganhando mais dinheiro mesmo com a chamada “pirataria” — mas as gravadoras não.

Isso começa a tornar as coisas óbvias… Os Beatles têm um selo próprio. Bonno Vox deve ter ações na Universal. As gravadoras estão perdendo dinheiro — e merecem, porque são elas que fodem os novos artistas cobrando preços absurdos que passam as vidas tentando pagar, e ganham dinheiro em cima de todo mundo só porque tem uma infraestrutura. Agora a internet oferece essa infraestrutura. Artistas, músicos — os caras que trabalham — começam a ganhar mais e os selos começam a querer um controle rígido da internet, a ponto de os ISPs dizerem que isso daria um prejuízo maior para eles do que o prejuízo que a indústria fonográfica alega ter.

Para fins práticos, é uma maravilha que o download ilegal seja praticamente impune. A chance de você ser pego ou processado, até onde sei, é muito pequena. Portanto tudo está no domínio público. O problema é que há gente que não quer ou não sabe como se adaptar.

A música nunca vai acabar. Talvez este modelo acabe, mas outro certamente surgirá. É por isso que não me preocupo muito com as leis ou com os interesses das grandes empresas. Mas sempre há algo de preocupante na história possível: e se…?

Solucionando São Paulo e Mais

Venho aqui expor meu ideal de cidade. Ele necessita de um mundo disposto, sem o conceito de dinheiro e menos pessoas, mas, caso você encontre isso e o planeta Terra esteja nessa situação… Este é o seu guia.

Existia, ou talvez hoje existam ruínas, uma cidade muito grande no Brasil. Em verdade, era a maior da América do Sul. Chamava-se São Paulo. No dia em que escrevo isso, São Paulo passou por cento e setenta quilômetros de congestionamento — que é uma gigante fila composta de carros, que são as verdadeiras espécies dominantes. Isso aconteceu porque, além da cidade ter crescido demais e o número de carros ser enorme, por esses dias a cidade passava por uma crise de enchentes.

Walking on Waters
Creative Commons License photo credit: SAO!

Então resolvi escrever algo que eu não gostaria de escrever: utopias. Esta é minha cidade utópica.

A humanidade já não depende mais de margens de rios para viver. Há muitos milênios desenvolvemos os primeiros canais, mas temos hoje bombas de água. Durante quatro séculos e meio São Paulo usufruiu, poluiu e, por fim, canalizou o rio Tietê. A necessidade de viver às suas margens tornou-se a impossibilidade de mudar a situação. Canalizar um rio é um erro; é um erro tão absurdo imaginar que há algum bem em concretar o solo, transformar o curso do rio numa reta ideal — com essa precisão milimétrica da engenharia.

Assim começaria a construção de qualquer cidade se me fosse dado o encargo: deixe o rio na dele. Abriríamos trilhas na mata pra quem quisesse pescar; teríamos um sistema de pequenos canais e bombas para desviar e bombear água do rio, em pequena quantidade.

Reconheço a necessidade de limpar o terreno, ou seja, derrubar árvores; não acho que isso seja ruim, se feito com moderação e bom senso. Pelo menos um quilômetro de mata ciliar contornando o rio seria o ideal. Esse mato teria um diâmetro, e os prédios iriam se configurar em círculo em volta dele. Em vários pontos o rio seria cruzado por pontes, portanto, que serviriam de comunicação entre os vários círculos da cidade, que são todos intercalados por mata.

Embora tenha reconhecido que desmatamento não é completamente ruim se feito do jeito certo, acho inaceitável que os círculos de concreto não tenham árvores. Mais que isso: não deveria, de maneira alguma, haver estradas ou ruas asfaltadas. Em lugar disso, trilhos de trem, que garantem a permeabilidade do solo. Carros seriam banidos, mas vias para ônibus circulares de maneira mais dinâmica, ao lado dos trilhos, são úteis. Ainda assim, trens são melhores.

Por quê? Porque hoje os humanos são subjugados pelos carros. Eles são rápidos e pesados, podem te atropelar ou te matar de câncer por causa dos gases que emitem. As cidades são feitas para eles, mas deveriam ser feitas pra nós.

Enquanto escrevo, muitos dos carros que passam por São Paulo desejam chegar ao litoral do Brasil. Esta é uma rota muito usada, e uma obra para desviar esse fluxo de carros é ansiosamente esperada: chama-se Rodoanel. Eu não acredito que isso vá funcionar, porque existe uma lei simples que rege as cidade. Ela funciona assim: construa uma rua ao lado da cidade, e ela crescerá para este lado.

É de conhecimento público que o sistema de governo por leis — permitam-me dizer, o governo em si — não funciona. Por este mesmo motivo, não existe no plano piloto de São Paulo, que é a lei que diz como deve crescer e se configurar a cidade, nenhuma lei proibindo o crescimento da cidade para este lado. Isto é, até onde sei. Para não deixar nenhuma dica aos meus contemporâneos, deveria existir uma lei com este teor: nenhuma construção deve ser feita na área entre a cidade e o Rodoanel; qualquer trecho que não seja metropolitano nesta área deveria constituir uma nova área de preservação ambiental.

Amigos, meus descendentes do futuro: se a humanidade passar por qualquer evento catastrófico, apocalíptico, peço que procurem conhecer tudo o que seus antepassados produziram em ciência, tecnologia, filosofia etc. Não permitam que a população cresça em níveis desnecessários; não permitam que nenhum tipo de economia insustentável surja, muito menos se ela for baseada no lucro — palavra cuja raiz história é a palavra lucru, latim para “logro”. Montem uma rede mundial de computadores e transmitam todo o conhecimento que puderem, de maneira gratuita e descentralizada. Não permitam que um governo se forme. Governos são instituições parasitárias que, sob o signo de conciliadores e reguladores, são na verdade legitimadores de condutas empresariais e, para tanto, chupam o dinheiro da população em geral.

Eu insisto que, se as cidades não mais existirem, voltem a existir. Em toda a história da humanidade, foi na cidade que surgiram diversos pensamentos novos. Naturalmente que uma grande quantidade destes pensamentos são terríveis, mas tenho fé de que terão a capacidade de distinção. A vida nômade é a mais natural para os humanos, então não deixem que as cidades vos tornem sedentários. Mesmo assim, volto a insistir, construam uma civilização com arquitetura harmoniosa ao mesmo tem que distinta visualmente da natureza… Conversem respeitosamente com a natureza… Mas voltem ao objetivo pelo qual, secreta e silenciosamente, trabalham meus contemporâneos sem saber: navegar novamente, navegar o espaço, lançar âncoras em novos mundos, sem jamais interferir no curso de qualquer espécie que por ventura viva lá, mesmo que seja tão simples quanto o mais insignificante de nossos vírus ou micróbios.

Este será provavelmente nosso último nomadismo, a não ser que aprendamos a viajar para outros universos.

KKKatólicos

Eu não gosto de kkkatólicos. Entenda, se você é católico — ótimo!, bom pra você. Mas se você for uma velhinha pseudamente bem educada; gosta de caridade; vai periodicamente na igreja; se defende os bons costumes; se as palavras sagradas são Tradição, Família e Propriedade; e não questiona o que diz o padre, então eu provavelmente não vá gostar de você.

Mas existe algo nos kkkatólicos que é absolutamente injustificável e irritante. É a pré-disposição deles em proferir, para qualquer pessoa com que estão conversando ou dividindo o ambiente, a Pergunta Fatal:

— Você é católico?

É algo chato, desnecessário, e parece sugerir que você, meu caro, não tem a capacidade de dividir um ambiente com uma pessoa que simplesmente não segue a sua religião. E isso é nojento.

(Este post foi divinamente inspirado por “Deus” versus Religiões, de Amanda Armelin que não é, certamente, uma kkkatólica.)

Gírias, e Hipotéticos Manés que as Evitam

Para escrever esse post quero que vocês assumam algumas coisas.

Primeiro: existem gírias, no mundo, e elas se parecem com palavras como “tipo”, “da hora”, “tenso” etc.

Segundo: existem manés no mundo, como apresentadores de programas que poderiam se chamar “Programa do Dudu”, ou como autores de livros pseudointelectuais etc. (Qualquer semelhança com pessoas/programas/autores/livros/pseudointelectuais/manés reais, na frase anterior, é pura coincidência.)

Terceiro: existem manés, que na posição de manés, evitam gírias. Isso é tenso.

Tendo isso em mente, pensemos: gírias são modos de se expressar criados pela sociedade, ou determinada fatia dela. São variáveis, passageiras, algumas legais e outras não. Mas há gente (há) que não gosta de gírias. Por quê? Porque são manés. Exato.

Querem ser cool. Intelectuais. Ouvem determinados tipos de música pra gente inteligente, e, quando escrevem, são mais incompreensíveis que o Rui Barbosa, que é um saco.

Esse post é pra vocês, amigos, que não usam gírias, se acham inteligentes etc. Pensar que eu quase virei um de vocês.

Esse post é para vocês, versões humanas do Gerador de Lero Lero. Vocês, que merecem meu desprezo eterno.

Cabaladadá no Twitter!

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INTERNETS
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Postarei todas as novidades lá, bem como links legais e qualquer coisa assim. E, sinceramente, o Twitter é o melhor feed que existe.

Por Que Tipografar?

Tenho aqui do lado uma série de livros. Um deles é o livro vermelho da tipografia — Elementos do estilo tipográfico, de Robert Bringhurst. É, sem dúvidas, uma das melhores obras que já li. Se eu te disser que o que eu faço da vida não tem absolutamente nada a ver com a tipografia, você poderia me perguntar por que eu li esse livro, ou mesmo por que me interesso pelo assunto.

Para responder isso, eu poderia dizer que eu vejo uma conexão entre o que faço e a tipografia; ou poderia, ainda, argumentar que me interesso por diversas áreas aparentemente divergentes. Mas vou responder de uma maneira diferente.

Exatamente na primeira subseção da primeira seção do primeiro capítulo desse livro Bringhurst escreveu: “a tipografia existe para honrar seu conteúdo”. Esta é a primeira de suas considerações para o leitor. Ora, isso é muito curioso: a tipografia é uma arte de suporte, dependente do conteúdo, ao mesmo tempo que o eleva.

Bringhurst também diz que a tipografia pode ser sincera, ou então acrescentar valor àquilo que não possui. Penso numa propaganda da segunda guerra, talvez um velho cartaz nazista, rasgado nas pontas, convocando a população a se unir ao partido.

Quando escrevemos um texto, principalmente um texto no qual trabalhamos duro, gostamos de vê-lo impresso, as letras concretizadas no papel. Mas cada uma dessas letras digitais que usamos carrega um peso histórico, que remonta dos antigos papiros — que, diz o autor, já possuíam visíveis noções de tipografia que continuamos a usar até hoje — passa pelas inscrições romanas em pedra — da onde vêm nossos tipos romanos —, depois pelos escribas, a prensa móvel chinesa e de Gutemberg, até as fundições digitais, nossas contemporâneas.

24 Gothic
Creative Commons License photo credit: rpmaxwell

Porque a tipografia tem uma tradição é motivo para que seja respeitada; porque tem um objetivo sincero, acredito que deva. Seu objetivo é honrar os mais altos pensamentos humanos que, muito embora postos em perspectiva não sejam nada em relação ao Universo, são aquilo que temos de melhor.

Na tipografia, tudo tem história, relação matemática, harmonia ou desarmonia, dependendo do objetivo.

Acontece que a máquina de escrever e depois os populares softwares de processamento de texto possibilitaram a virtualmente qualquer pessoa que edite seus próprios textos. Nenhuma noção de tipografia foi dada; esse não é o interesse, pois o interesse é vender.

As consequências são um desrespeito em duas vias: um que atinge a tipografia, outro que atinge nossos textos e até mesmo, pasmem, livros publicados fisicamente. Valorizo aquilo que produzo, e por isso valorizo a boa tipografia, dentro dos meus limites de amador. Se você sente que aquilo que escreve merece respeito, minha dica é que comece a respeitá-lo.

Notificando-se de Maneira Divertida

Se você usa Linux, existem várias maneiras de se notificar. Vou apresentar três delas, da mais espartana à mais legal. “Se notificar” é útil pra qualquer coisa da vida: se lembrar de comer, de alimentar os gatos, ou qualquer outro compromisso importante.

Método Um: xmessage

O xmessage é bem simples. Você digita xmessage “Mensagem” e uma janela feia do X irá pular na sua frente esperando que você clique em “Okay”.

Digamos que você precisa buscar sua vó no aeroporto às quatro e meia da tarde para o concerto do Rick Wakeman. Eu faria assim:

 $  at 16:30
warning: commands will be executed using /bin/sh
at xmessage "Buscar a vó."
at
job 13 at Sat Jan 23 16:30:00 2010

E às quatro e meia o xmessage irá pular na tua cara!

Método Dois: notify-send

O NotifyOSD é uma criação fabulosa para o Ubuntu; um sistema de notificações simples, não intrusivo e bonito. O único problema é que ele não espera você clicar em OK e some da tua cara inadvertidamente, portanto não use ele para te lembrar do concerto de sua vó. Por exemplo:

 $  at 18:00
warning: commands will be executed using /bin/sh
at notify-send "Alimentar os cachorros da vizinha que foi viajar."
at
job 14 at Sat Jan 22 18:00:00 2010

Método Três: xcowsay

xcowsay foi o notificador que me inspirou para fazer esta postagem. Sério. É muito legal. Veja o exemplo:

 $  at 17:00
warning: commands will be executed using /bin/sh
at echo "Lembrar de fazer o posto sobre o xcowsay!" | xcowsay -t 40000
at
job 15 at Sat Jan 22 17:00:00 2010

O Guia Espiritual do Linux & Seus Amigos

Introdução

Este é o Guia Espiritual do Linux & seus Amigos. Mas não é um guia qualquer. Suas diferenças residem em diversos pontos. Primeiro, ele é aleatório: aparentemente, seus tópicos não estão conectados, mas se você tiver presença de espírito para compreendê-lo como um todo, sentirá sua harmonia. Segundo, ele não é premeditado. Foi escrito pela inspiração de Tux e Seus Santos Cavaleiros, Vim e Fluxbox. Terceiro, é um dos poucos guias espirituais que tratam sobre assuntos que, de outra maneira, seriam tratados como técnicos. Finalmente, e mais importante, ele é elitista. Apresenta uma visão conservadora e representa uma classe única de usuários e crenças sobre a vida.

Lembro que o nome original deste Guia para em Linux, mas acrescentei a parte final de modo a expandir o motivo do Guia. O nome do Linux está em destaque não em detrimento de outros honoráveis projetos, mas simplesmente porque assim como Bom Bril é sinônimo de esponja de aço, Linux é sinônimo de software livre.

Colocando as cartas na mesa logo de cara, o Guia pretende se fazer sincero. Pode ser unilateral e parcial, mas nunca tentará enganar você. Os dogmas apresentados abaixo devem fazer sentido para você, ou então você pode descartá-los. Um Guia egoísta, porque “querer o meu não é roubar o seu”.

Dogma Um: Usuários de Linux Fazem Parte de uma Elite

Embora seja correto dizer que o Linux é de todos, é incorreto imaginar que ele seja para todos. Existem muitos fatores que definem quem pode ser e quem não pode ser um usuário de Linux. Entre eles, estão inteligência, mente aberta, vontade de explorar, saber onde achar informações, conseguir se virar etc. Existem outros fatores sociais, também, mas deixo isso para o leitor pensar.

O computador é uma ferramenta poderosa. Criar um sistema operacional que seja fácil para o completamente leigo significa que ele deixará de ser poderoso. Por exemplo, Google Chrome OS. Um sistema operacional mínimo, com as limitações óbvias da Internet. Ou o Windows, cujo nível de personalização e configuração é domado pela GUI. É um erro imaginar que o Ubuntu seja um sistema utilizável por um leigo. Não estou falando de trabalhos triviais: um dia o usuário terá de executar manutenção, e ele precisa saber o que está fazendo ou, pelo menos, saber onde procurar ajuda.

E quanto mais poderosa uma ferramenta, maior a responsabilidade e a demanda de conhecimento.

Por outro lado, ninguém cobra nada de você pelo sistema operacional. O usuário deveria ser nobre e puro antes de colocar a mão num computador rodando um SO que possui essas qualidades.

Por fazer parte de uma elite, o usuário de Linux deve sempre ser tradado com gentileza e distinção. Nunca deve ser cobrado por um usuário novato em desespero por ajuda. Ele assiste se quer e quando puder. Cada um cuida de seus problemas da melhor maneira possível — e é espantoso como a elite sempre dá suporte, e mais espantosa ainda é a qualidade dele. Na média, a documentação dos softwares livres é muito superior à dos projetos privados.

Distribuições como o Ubuntu são maravilhosas. Elas demonstram como um sistema operacional aberto e baseado na boa vontade dos outros pode até mesmo querer melhorar sua interface gráfica, algo que é secundário. Mas distribuições voltadas para o “usuário final” são os Harry Poteres do mundo open source. São outdoors muito eficazes para agregar usuários, o que é importante, mas não exigem o uso da cabeça tanto quanto um Fernando Pessoa exige.

Dogma Dois: o Hardware deve ser Respeitado

O Linux permite uma customização sem limites. Usando uma distribuição de macho como Gentoo Linux, é possível compilar seu kernel para que ele fique completamente otimizado para seu hardware. Mas a customização mais eficaz é aquela que diz respeito às aplicações que você roda.

Existe um cardápio gigante nos repositórios de todas as distros. É fortemente recomendado que o usuário prove aquelas iguarias mais respeitadas, poderosas e famosas. Estou falando de aplicativos como o Vim, Emacs, Fluxbox (ou Openbox, Window Maker etc.), LaTeX, mplayer, wodim, mutt, xterm, Audacity, Blender etc.

Não existe justificativa (a não ser a diversão) para programas pesados. Essa é uma prática empresarial, para estimular a venda de programas (quanto mais pesado, parece que está melhor que a versão anterior) e de computadores. É uma ferramenta a mais que as corporações têm na manga para obter lucro. Comprar o Word seria minimamente justificável se não existisse um processador de textos chamado LaTeX, que possui uma qualidade infinitamente maior, uma organização lógica do documento, uma leveza absurda, e é completamente livre de bugs, além de respeitar os assuntos da tipologia e processar documentos com qualidade profissional.

Projetos como o OpenOffice são úteis mas não são nobres. Se você deseja tirar o máximo de seu hardware, deve procurar aplicativos leves e que, na contramão da intuição que foi enfiada na cabeça de muitos, são muito mais potentes que aquelas ferramentas pesadas que vemos por aí. Sem falar que respeitam algo muito importante, que é nosso próximo tópico.

Dogma Três: a Tradição deve ser Respeitada

Quando falamos do Microsoft Word, comentamos que ele não respeita a tipografia. A tradição da tipografia tem seiscentos anos, e o processador de textos simplesmente resolveu ignorá-la e criar péssimos hábitos na população. Vide a ABNT. Uma norma contraditória, sem motivo para existir e sem critério nenhum. Se o padrão fosse o LaTeX, ao invés do Word, seria inútil criar uma norma idiota, já que o padrão seria uma consequência natural do respeito à tradição tipográfica. Um adendo: a tradição tipográfica passou por fases, como a arte; portanto, seus conceitos são racionais e não arbitrários. Ela propõe uma organização interna lógica; e, acima de tudo, serve para emoldurar e dar o tratamento que o texto precisa. Ou você gostaria de deixar teu texto, sua criação, mal tradada, de qualquer jeito?

Mas voltando à tradição: quando a computação surgiu, a limitação de recursos era absurda. Estamos falando de kilobytes. Computação era a arte de fazer coisas belas e funcionais num espaço restrito, e isso deu origem a programas espartanos, com uma curva de aprendizado acentuada, sem qualquer eyecandy. Quando Donald Knuth inventou o TeX, fez algo maravilhoso: um sistema lógico e leve para produzir, com qualidade profissional, textos os mais variados.

Hoje os valores giram em torno dos gigabytes, o que tornou possível coisas “maravilhosas” como as touchscreens. Um sistema operacional baseado em toque seria o terror absoluto para qualquer ser pensante, mas isso é vendido como algo “du futuro”. A computação popular é a arte de enganar (e de fazer cifras enormes de dinheiro jorrar do silício).

O Linux é o melhor estandarte do software livre, que, acima de tudo, e heroicamente, leva em frente a tradição da computação. Todo usuário deveria ter conhecimento disso e deveria considerar isso um valor muito forte.

O conservadorismo que este dogma propõe não é, de maneira alguma, voltado ao passado ou luta contra o avanço da tecnologia. Pelo contrário: é um conservadorismo realista, que luta contra o desperdício de recursos e inteligência, e que tem como principal pressuposto que somos todos inteligentes e pensantes, ao invés de burros e acéfalos.

O ser humano tem a capacidade de se comunicar, e fazemos isso por meio de uma sintaxe. Nossa comunicação não é visual — e, quando se torna visual, com a escrita, é apenas uma realização da fala, que contém a mesma sintaxe mas outra forma de representar os sons. Da mesma forma, o nível mais natural de comunicar-se com um computador é conversar com ele. Assim é que se dá a programação (uma linguagem com léxico e sintaxe próprias), o uso do terminal (conversa-se usando uma série de instruções ou comandos, ou seja, verbos cujas opções seguem uma sintaxe) etc. É muito mais natural dizer ao computador shutdown -h now ou apenas halt que usar o mouse até achar um botão escrito isso.

Algumas pessoas me apontaram como um ponto negativo do terminal ter que decorar todos os comandos. Isso é mentira. Decorar palavras estimula nossa inteligência, e é algo tão comum à nossa natureza que me faltam palavras para explicar como acreditar que decorar comandos possa ser um revéz. Alguém pode contrargumentar, já que a memória visual também é um atributo natural, mas eu retruco dizendo que a linguagem possui muito mais poder que a visão. Uma pequena argumentação a favor da linguagem: é com ela que chegamos a conclusões mais complexas. Filosofia, estratégias, medicina, e me arrisco a dizer, a matemática, não existiram sem esta organização inita de pensamento que dá origem à esse fenômeno. Por linguagem, me refiro àquela escrita, falada ou por sinais (como a libras). O meio mais óbvio de se comunicar com o computador é por meio do teclado; logo a linguagem que usamos com ele é escrita.

Comandos de voz são o verdadeiro inferno astral dos programadores. Imaginar um mundo onde os computadores são completamente controlados por fala é absurdo. Imagine programar. Se você usar a sua língua materna para tanto, o código será gigante. Programas são feitos com línguas de léxico reduzido e sintaxe poderosa.

É por isso, essencialmente, que o terminal é mais poderoso e mais leve que a GUI.

Dogma Quatro: a Comunidade é Sagrada

Esse assunto deixou algumas gotas derramadas no primeiro dogma, mas a verdadeira poça está aqui. A comunidade é o único pressuposto (além de uma máquina programável) para que algo como Linux e software livre exista. Ela não deve, em circunstância nenhuma, nunca, ser atacada por palavras ruins e destruidoras, a não ser que para seu próprio bem. A comunidade é um processo orgânico que dá origem à seus próprios filhos de modo exemplar, e isso justifica a manutenção de seus valores, métodos e tradições. Se esse tripé for varrido da mente das pessoas, não há estrutura suplementar que assegure a continuidade do software livre.

Em outras palavras, se novas pessoas não se interessarem pelo movimento, e as velhas morrem, o movimento morre com elas.

Isso não significa que não existirão brigas, divergências, panelinhas e tudo o mais na comunidade. A diversidade do meio ambiente é o que garante sua sobrevivência, estejamos falando da natureza ou dos desenvolvedores livres de software. Existem os xiitas, os liberais, os de esquerda, os de direita, os divertidos, os bravos, os desligados, os vigilantes etc.

Os nerds e geeks não podem se tornar uma espécie em extinção como os dodos.

É na comunidade, nas ágoras virtuais, que a coisa realmente acontece. É graças a ela que centenas, milhares de novatos se tornampessoas melhores. Em verdade, muito além das questões de facilidade e dificuldade, muito além, reside a Verdade: é graças aos seus vizinhos e conhecidos que você aprendeu a usar o computador. Eles te ajudaram a resolver os problemas elementares que te deram o mapa pra se virar. Seja você um usuário de Linux, Windows, Mac OS, BSD, BeOS ou ábaco — agradeça às pessoas envolvidas no processo agora. Se todos os teus vizinhos usassem Linux, você seria um usuário dele. Mas o mundo não é tão perfeito assim.

Há pontos obscuros na comunidade. Por exemplo, você pode não saber, mas o comando ddate, onipresente em todas as distribuições de Linux que tive o prazer de usar, é um inútil apetrecho, um fóssil preservado do movimento discordiano. O Linux, meu irmão, serve a todo tipo de freak que você puder imaginar.

Dogma Cinco: Seriedade é Furada

No livro sagrado do discordianismo, o Principia Discordia, na Parte Cinco, intitulada “The Golden Secret”, há um texto com o título “Nonsense as salvation”, que é uma das maiores peças únicas do conhecimento humano.

Nonsense é a salvação.

Além do ddate, existem muitos outros comandos ou easter eggs que são formas dos programadores de se expressar, ou de descontrair um pouco. (Um exemplo pra quem usa Debian e derivados é o apt-get.)

Mas o mentor espiritual de todos os usuários de Linux é o Tux. Além do nome legal, este é provavelmente o único motivo pelo qual usar esse sistema operacional.

Tux, o Buda do Linux

Ao contrário da “seriedade e profissionalismo” exigido no cruel mundo das empresas de software, o software livre como um todo é livre para sorrir e ser ele mesmo. Na Wikipédia há um trecho que diz respeito ao surgimento do símbolo. Eu iria resumir aqui e escrever mais um pouco, mas acho que vocês têm a iluminação exigida para entender a profundidade disso.

Em 1996, muitos integrantes da lista de discussão “Linux-Kernel” estavam discutindo sobre a criação de um logotipo ou de um mascote que representasse o Linux. Muitas das sugestões eram paródias ao logotipo de um sistema operacional concorrente e muito conhecido. Outros eram monstros ou animais agressivos. Linus Torvalds acabou entrando nesse debate ao afirmar em uma mensagem que gostava muito de pinguins. Isso foi o suficiente para dar fim à discussão.

Depois disso, várias tentativas foram feitas numa espécie de concurso para que a imagem de um pinguim servisse aos propósitos do Linux, até que alguém sugeriu a figura de um “pinguim sustentando o mundo”. Em resposta, Linus Torvalds declarou que achava interessante que esse pinguim tivesse uma imagem simples: um pinguim “gordinho” e com expressão de satisfeito, como se tivesse acabado de comer uma porção de peixes. Torvalds também não achava atraente a idéia de algo agressivo, mas sim a idéia de um pinguim simpático, do tipo em que as crianças perguntam “mamãe, posso ter um desses também?”. Ainda, Torvalds também frisou que trabalhando dessa forma, as pessoas poderiam criar várias modificações desse pinguim. Isso realmente acontece. Quando questionado sobre o porquê de pinguins, Linus Torvalds respondeu que não havia uma razão em especial, mas os achava engraçados e até citou que foi mordido por um “pinguim assassino” na Austrália e ficou impressionado como a mordida de um animal aparentemente tão inofensivo podia ser tão dolorosa.

Dogma Seis: Iniciação

Um jovem senta-se na frente de seu computador e conecta-se à internet, buscando ajuda em sua jornada pelo mundo do software livre. Ele é novo no terminal, um andarilho por terras de línguas diferentes. Em resposta às suas perguntas incessantes, um barbudo, velho conhecido, diz-lhe que as soluções para seu problema são sudo rm -rf /.

Esses são os elementos da iniciação no software livre. Como em todo ritual de iniciação, as tarefas são árduas, e muitas vezes o neófito é aparentemente humilhado. Isso é o que chamamos de “aprender do jeito difícil”. Tenho certeza de que alguém que caiu nessa nunca mais irá usar rm sem o argumento -i.

A iniciação é um fato mais que um dogma, mas torná-la dogma garante que os infieis não destruam esse aspecto importante de nossa cultura, como eles fizeram com a deles.

Dogma Sete: duas Palavras de Fé que Todo Crente Deve Decorar

São duas filosofias (de vida, quase) que se ligam com todo o texto que escrevi até aqui, em especial o Dogma Três.

Filosofia Unix

  1. Escreva programas que façam apenas uma coisa mas que façam bem feito.
  2. Escreva programas que trabalhem juntos.
  3. Escreva programas que manipulem streams de texto, pois esta é uma interface universal.

KISS — Keep it Simple, Stupid

É isso aê.

Conclusão das Palavras de Fé

São essas filosofias que permitem que coisas bonitas como

dmesg | grep hda | mail foo@foo.com

possam existir. São essas coisas bonitas que fazem do sistema Vim+LaTeX algo muito melhor, em termos de produtividade, qualidade, e todos os outros imagináveis, que um Word ou OpenOffice da vida.

Que você seja iluminado pelas palavras acima, e que discorde ou concorde com vivacidade.